Atualidade da Psicanálise no Brasil

O Brasil, junto com a França e a Argentina, é um dos principais expoentes na psicanálise mundial. Isso não significa que não haja psicanalistas em outros países. Por exemplo, Contardo Caligaris, psicanalista recém falecido (1948-2021), era italiano, mas radicado no Brasil. Outro exemplo internacional é Slavoj Žižek, filósofo iuguslavo que se fundamenta nas teorias psicanalíticas em sua produção intelectual. Também há de se citar Zigmund Bauman (1927-1917), sociólogo polonês, que tem a teoria de Freud em grande estima. A psicanálise ainda vive bem, apesar dos ataques que sofre na contemporaneidade.

Mas esse texto não é para falar do quadro psicanalítico internacional, e sim olhar um pouco para o contexto brasileiro. Quem são os principais nomes da psicanálise no Brasil? Como obter um conhecimento psicanalítico válido, tendo em vista a pluralidade de discursos psicanalíticos e pseudo-psicanalíticos em nossa época? Enfim, onde estudar psicanálise com qualidade?

Primeiramente, eu gostaria de começar com algumas considerações históricas sobre a psicanálise no Brasil. Uma das principais referências sobre o assunto é o livro da psicóloga Jane Russo “O mundo Psi no Brasil” (2002). A leitura desta obra, tão importante para os profissionais psi, aponta que as ideias de Freud estão presentes em nossa cultura desde o início do século XX e que o pensamento freudiano já era referenciado no ensino acadêmico da psiquiatria desta época.

Quando a psicanálise começou a se disseminar pelo mundo nas décadas de 1910 e 1920, surgiram no Brasil as primeiras associações psicanalíticas, em especial em São Paulo e no Rio de Janeiro. Nesta, a psicanálise estava mais restrita ao saber médico, enquanto os paulistas eram mais abertos na disseminação do pensamento psicanalítico. Desde o princípio, não era preciso ser médico para ser psicanalista, ao menos em alguns estados brasileiros.

Quando Melanie Klein tornou-se uma das principais psicanalistas da Inglaterra (e por que não dizer do mundo?), suas concepções sobre o tratamento psicanalítico se espalharam também em território brasileiro. O pensamento kleiniano manteve sua hegemonia teórica e prática até a década de 1970.

Já estamos, em nossa breve reflexão histórica, no período em que a psicologia se institucionalizava no Brasil, o que ocorreu de fato em 1962. Curiosamente, em seu ato de fundação, os psicólogos brasileiros não incluíram o trabalho psicanalítico dentre as atribuições exclusivas do psicólogo. Russo (2002) aponta que a psicologia nesse momento tinha um viés muito mais educacional, sendo a clínica algo mais ligado aos psiquiatras e psicanalistas.

Dois pontos podemos verificar nesse contexto. O primeiro é que a psicologia e a psicanálise têm caminhos históricos muito diferentes no Brasil, sendo independentes nas suas origens. O segundo a própria psicanálise lutou para se tornar independente da psiquiatria, o que também teria ocorrido a partir da década de 1970. Além disso, as próprias instituições de psicanálise se subdividiam em grupos distintos conforme as divergências teóricas e ideológicas ocorriam. Percebe-se que os psicanalistas jamais formaram em território brasileiro um grupo coeso, da mesma forma que ocorre em diversas partes do mundo (como é o caso da Inglaterra que se dividiu entre os anna-freudianos, os kleinianos e os independentes entre 1930 e 1960).

A divisão das diversas vertentes da psicanálise aumentou quando, depois da década de 70, tivemos as chamadas “invasões” argentina e francesa. A psicanálise passou a ter também um viés social, influenciada pelo pensamento progressista argentino que, por sua vez, trouxe influências de movimentos como a Escola de Frankfurt. Já na invasão francesa, vemos a influência dos psicanalistas lacanianos.

Ainda hoje, vemos os psicanalistas brasileiros fortemente influenciados por Klein (como é o exemplo de David Zimerman [1930-2014], autor do “Manual de Técnica Psicanalítica” [2008]), Donald Winnicott  e  Lacan (Christian Dunker, Maria Rita Kehl, Marco Antônio Coutinho Jorge, Antônio Quinet).

A psicologia no Brasil seguiu por outro caminho, como por exemplo o das ciências comportamentais e cognitivas. Bem como, também, a psicologia social influenciada pelos pensamentos de Lev Vygotsky que também ressurgiu no pensamento psicológico brasileiro na década de 1970. Percebe-se, assim, que no campo teórico cada vez mais a psicologia e a psicanálise se distanciam.

Pela via da lei, o psicólogo atualmente deve ser formado em uma graduação autorizada pelo Ministério da Educação. Deve seguir as normas técnicas e éticas digitadas pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP). A psicologia é uma ciência muito próxima do sentido clássico. A psicanálise, por sua vez, segue um outro caminho: o da não institucionalização. Por opção, se entende que, para a verdadeira prática da ética da psicanálise, não se deve regulamentá-la, mas sim permitir uma experiência subjetiva e livre – que existe entre analista e analisando. A não institucionalização do saber psicanalítico em um órgão regulador (como, por exemplo, um Conselho) não significa a inexistência de qualquer tipo de normativa ou rigor para o psicanalista. Muito pelo contrário: significa uma recusa do poder do Estado como regulador das práticas – ou seja, a psicanálise permanece fiel à concepção liberal que o próprio Freud adotou em sua época.

A psicanálise não deve ser ensinada nas universidades, como Freud dizia. Isso quer dizer que não deve ser institucionalizada sobre uma figura de autoridade que se legítima pela organização política de uma sociedade. Não quer dizer que não há espaço para o saber acadêmico psicanalítico. Muito pelo contrário. E, inclusive, o objetivo deste artigo é mostrar caminhos para se encontrar um material de qualidade entre os psicanalistas brasileiros. Isto envolve revistas acadêmicas, avaliadas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Mais informações abaixo, pode-se verificar uma lista de periódicos (ou revistas científicas) avaliados por QUALIS (sistema da CAPES de classificação da produção científica dos programas de pós-graduação do Brasil). Ou seja, mesmo não havendo no Brasil a institucionalização da psicanálise e nem a academização do saber psicanalítico, ainda assim é possível avaliar produções científicas por meio do próprio saber acadêmico.

No Brasil, não é possível ser psicanalista por formação, pois é uma ocupação livre. Mas é possível e desejável submeter o conhecimento psicanalítico a outros pares pela via da instituição universitária. Algo interessante que o próprio Dunker propõe em um dos seus vídeos no YouTube: que a publicação seria o quarto pé da formação do psicanalista. Quem sabe, não podemos adotar essa prática? É algo que está ao nosso alcance enquanto sociedade.

O próprio saber psicanalítico também é divulgado em meios menos acadêmicos, como o próprio YouTube e as redes sociais. Também neste artigo, trago algumas indicações de canais confiáveis na transmissão da psicanálise. Fazendo coerência com o que escrevi acima: A psicanálise pode estar nas universidades, mas não se limita a elas.

Também é interessante conhecer a publicação de livros e dos próprios artigos científicos dos principais psicanalistas brasileiros. Também dediquei uma área deste artigo para isso.

Por último, mais focado em minha região, indiquei cursos de psicanálise que seguem o rigor e a ética proposta por nossos grandes referenciais. Não fiz distinção entre saberes acadêmicos e de associações livres – deixando todos no mesmo espaço. Por uma questão geográfica, são as instituições que consigo verificar como confiáveis.

Espero que este artigo sirva como um guia para encontrar conhecimento de qualidade, pois o preço da não institucionalização da psicanálise é a produção de saberes equivocados e às vezes de má intenção – os famosos charlatões, que utilizo o nome da psicanálise para suas práticas de forma indevida. Por fim acredito que a informação e a educação é a melhor forma de prevenir este sequestro da psicanálise. Bons estudos!

 

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Instituições de Formação e Pós-graduação em Psicanálise

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Mestrado em Psicologia

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Curso independente

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Célio Luiz Pinheiro

Psicanalista independente

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